segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Cativante

Observei-te adentrar a porta do apartamento 505. Não te fisguei com o olhar pelo costume rotineiro de apenas te notar nos mínimos detalhes. Teu andar me cativas. Chegou quieto, de passo firme, sem muita pressa. Pensei em elogiar o par de meias de seda contrastando com o tênis branco, mas que ironia da minha parte. A verdade é que o teu andar me cativas. Tornei-me adepta a te reconhecer somente pelo andar cativante que sorri em rápido compasso quando vem de encontro ao meu desconcertante passo. Não é pelas coxas grossas, nem mesmo pela canela fina um tanto quanto cômica, mas teu andar me cativas. Talvez seja por culpa das estações do ano, pela morte de Julieta, mas fico com o teorema de que me cativas pelo fato de ser teu.

domingo, 27 de outubro de 2013

(Des)concordância

Ora, que falta de concordância nominal 
E rudemente sentimental. 
Desfrutei da tua alma doce. 
Viajei com passagem de ida com destino ao teu olhar. 
Perdi-me em teus lábios sabor pêra, 
Encontrei-me em tua alma cor de mel. 
Desperdicei horas de sono buscando 
O pretérito perfeito para telefonar-te. 
Mas o tal pronome reto avisou-me: 
- Primeira pessoal do plural não te resta mais.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Devaneio

Despertei do sono agudo
Para consagrar que
Ao meu lado não te restava mais
Despertei pela dor, não pela falta.
Refiz meu pericárdio à mão
Esbanjei alegria ao bem-te-vi
Postei cartões postais para a saudade
Mas não pela dor, pela falta.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Com carinho, eu

Chegou de Ipanema
Sem me dar um telefonema
Desculpou-se com dois beijos
Satisfez os meus desejos
Desfrutei do amargo ócio
Não te aceito como negócio
Quem sabe em outra história
Você seja minha, Vitória.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Não tem jeito, Chico

Não tem jeito, não
A saudade bateu aqui
Como quem quer ficar
Sem desculpas do por que
Um dia foi e não quis voltar.
Não tem jeito, não
Preferi te guardar no peito
Ao invés de te procurar
Em canções de Chico
Só me peça para ficar
Que desta vez eu fico
Não tem jeito, não.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Parte de mim

Jurei para mim
Que não viveria mais assim
Até mesmo se eu for para o inferno
Mas logo agora que você, lindo inverno,
Se foi para bem longe juntamente do ardume
O mesmo doce e vigarista perfume 
Que jurou assim
Não levar parte de mim.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Onze

Teu abraço disse adeus
Com tuas tralhas
Juntamente com o mês onze
Doce, amargo, mas
teu.
Restaram apenas
Dois rumos, uma história
Daquele dia cinco
Doce, amargo, mas
nosso.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Inverno

Olhando assim, bem ao fundo dos teus olhos,
Eu tive a certeza de que é você
E certeza que foi com você que eu
Perdi a noção do quanto os ponteiros
Do relógio correram no último mês, mas
Olhando assim, bem ao fundo dos teus olhos,
Eu não reclamei de ter perdido o verão,
E as flores ao chão do meu querido outono,
Mas te invejei por não ter perdido o inverno
Aquele inverno em que me perdi
Olhando assim, bem ao fundo dos teus olhos.

sábado, 5 de outubro de 2013

Gosto

É estranho, pode até parecer estranho, mas prefiro teu arroz queimado ao invés da macarronada da mamãe aos domingos. Prefiro ver tuas roupas jogadas na cama ao deixar o lençol lisinho com a pelúcia que me deu como enfeite. Até que ando sentindo falta do teu café sem gosto e das tuas revistas semanais sobre esportes. Falaram que ando na pior por não ter que reclamar do pequeno espaço que me sobra quando se deita ao meu lado. Não é estranho, pode até parecer estranho, mas eu te prefiro.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Maresia

Fui para longe, para qualquer lugar
Decidi que já não era hora de ficar.
Quem sabe outra vez, em outro outono
Eu permaneço perto de ti sem o abandono.
Não era de costume, nem mesmo na poesia
Retratar o meu amor feito uma maresia.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Adeus, Helena!

Sexta feira treze. Dia de sol, dia de chuva. Dizem por aí que é casamento de viúva. Não me apego a certos ditados, mas confesso que esse me agrada. Primavera. Mas quem vê uma primavera nesse país? País de duas estações. Ás vezes ao mesmo dia, como hoje no casamento da viúva Helena. Helena a viúva noiva do viúvo João. Perderam teus amores há cinco anos cada. Conheceram-se há pelo menos dois. Hora de chuva. Helena estava bela, João uma fera. Teu terno encharcou. Confesso que foi culpa minha. Não é ciúmes, não mesmo. Hora de sol. Helena caminhou docemente até o altar. João estava ansioso. Pousei ao teu lado e fiz questão de não respirar para que não notasse a minha presença. Helena chorava de emoção, sempre foi uma manteiga derretida. João pegou em seu braço e disfarçou as lágrimas que escorreram dos seus olhos. A aliança estava um pouco apertada. Helena engordou. Posso escutar as fofocas sobre a barriguinha discreta da doce Helena. Vem aí um João Filho. Não será tão esperto e charmoso como o pequeno de sete anos ao lado esquerdo de Helena. Hora de partir. O casório estava lindo, João nem tanto. É, talvez eu esteja um pouco enciumado. Vê se não esquece o arroz no fogo quando colocar Beatles para tocar. Cabeça de vento, mal de viúva jovem. Adeus, Helena!