quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Traição

Estranhei o fato de a garota do colégio, que sempre usava suéter, estar vestindo moletom. Eu amava seus suéteres. O azul marinho segunda-feira era o meu preferido. Mas naquele dia o moletom cinza a convenceu melhor do que o vermelho quarta-feira. Pensei que fosse para combinar com o dia nublado, mas era primavera. Não há dias nublados na primavera. Foi atípico, assim como o moletom. Pensei que os seus suéteres estivessem de molho na máquina de lavar esperando a procrastinação ir embora, mas isso tem mais a minha cara do que a da garota do colégio. Quem se preocupa em usar suéteres também se preocupa em lavá-los sem procrastinar. Pensei que pudesse ter enjoado de suéteres, mas pessoas não enjoam de suéteres como quem enjoa delas mesmas. Voltei a pensar na procrastinação. Talvez ela tivesse feito mais uma vítima: a garota do colégio esqueceu o suéter vermelho quarta-feira de molho na máquina de lavar e o mesmo desbotou. Mas nada disso. Notei que os outros dias não eram mais dos suéteres. Os moletons a convenceram de vez. Sinto falta dos suéteres, principalmente do azul marinho, mas agora estou amando o moletom roxo e a quinta-feira.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sobre nós que não estão nos cadarços

Há indícios que comprovam
Que a falta do meu café preto
As mil (e uma) noites mal dormidas
A correspondência que nunca chega 
O moço do churros que se locomove sem aviso prévio 
Os pontos finais que não coloco a cada fim de frase
O "x" da matemática que eu nunca encontro
A paçoca que eu prometo comer uma vez (e como cem)
O lápis de olho borrado que eu sempre esqueço de tirar
Não se assimilam ao fato corriqueiro 
De os meus lábios secarem
Sempre que busco os seus. 
O tempo seco ajuda:
- Mas são sempre os seus.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015