Mas quem diria que apenas de ida Com tua madeixa colorida Você chegaria com teus olhos Cor de céu Com esse modo sabor mel. E quem realmente diria, linda menina Que eu adoraria a anilina, A mesma que colore os teus fios, A que tem cheiro de eca, Mas eu não me importo se vier ficar careca. Eu realmente diria, doce guria Que os teus 1,70 de sol Tão graciosa quanto um girassol Surgisse do primor O mais puro e belo amor.
Hoje pela manhã estranhei o fato de não encontrar-te
debruçado no balcão da cozinha comendo pão com mortadela no café. Estranhei
mais ainda não ter me irritado com a toalha molhada no braço do sofá ou até
mesmo pela cueca jogada na porta do banheiro. Não que eu esteja achando que
algo está faltando, mas senti falta. Não que a falta seja tua, mas estranhei ao
ver as chaves intactas no chaveiro e não por cima da mesa como o de costume.
Notei que não precisei reclamar sobre o abajur estar ligado e nem pelos sapatos
estarem por toda a casa. Precisei fazer o chá de ervas, mas meu paladar pediu o
teu de hortelã que deixa a língua melada de tão doce. Mas doce seria se eu não
estranhasse o fato de você estar debruçado no balcão da cozinha comendo pão com
mortadela no café ou até mesmo pelos sapatos estarem por toda a casa, ao invés
de sentir a falta, mesmo que não seja a tua.
Ei, desculpe o incômodo, mas gostaria de lhe dizer que a
falta de você não chegou até mim. Pensei em ter insônia, falta de fome,
vertigem, ânsia, mas comi. Pensei em ter você de volta, em chegar ao quarto e
te ver estatelado ocupando a cama inteira, em brigar contigo por conta de
política, mas briguei com o porteiro tucano. Pensei em sentir falta, em chorar
de saudade, em te ligar em prantos na madrugada, mas só pensei.
Entreabri a janela do quinto andar ao anoitecer e lá estava
você, debruçado na sacada de mármore cantarolando bossa nova como quem chama o
luar. Sorri em aprovação pelo tom desafinado que, francamente, Jobim
gargalharia. Olhou em meus olhos e buscou uma resposta convincente pelo sorriso
em aprovação pelo tom desafinado, então gargalhei como Jobim gargalharia.
Cantarolou Chico ao mesmo tom desafinado que Jobim gargalharia, mas eu apenas
sorri com meus olhos de comer fotografia. Cantarolou afinado a nota si que mais
parecia ser sobre si mesmo, mas debrucei-me pela janela e te acompanhei na nota
sol, sol que despertava o cantarolar do bem te vi no parapeito da janela do
quinto andar nos avisando que o raiar do dia descansou o luar.
Ao abraçar o raiar do dia, pude ver que lá adiante havia um horizonte mas um horizonte que lá adiante não me abraçava como o raiar do dia. Então beijei o anoitecer. Senti que o luar chamava-me para cair em teus braços, mas cai em outros e notei que era o teu abraço.
Diga que chegará com tom de surpresa e pelo menos dessa vez
eu deixo você escolher aquela cafeteria do café fraco que você adora, por
gentileza assisto a tua comédia romântica favorita sem ao menos cochilar aos
sete minutos de filme, juro que durmo ao lado esquerdo da cama sem reclamar que
o vento que vem de fora me deixará resfriada, de boa vontade lavo a louça suja
do jantar sem choramingar que já havia lavado a do almoço, mas de brinde lhe
prometo que devolvo o beijo que roubei ao mesmo tom de surpresa em que chegou.